domingo, maio 01, 2016

O inferno de cada um


Passam os dias,  semanas,  fins de semana,  anos, sem que nada mude. A dor continua aqui. A solidão continua aqui. Olho pela janela e nada lá fora me parece capaz de diminuir esse sofrimento. Não me sentir amada,  não amar é esse meu inferno. Quem diz que isso é besteira,  que não temos que sentir falta disso,  que o amor próprio basta, não sabe o que está falando. Não sente a dor de dia após dia entrar na casa vazia,  silenciosa,  não dividir a cama,  a pipoca,  não brigar por uma bobagem qualquer. Quem fala que isso não importa na vida ou está muito bem acompanhado ou um pouco morto por dentro. Eu estou viva.

quarta-feira, março 23, 2016

Mais uma página



Hoje meu desejo é dizer de páginas.
E da convivência com esse incrível grupo de mulheres e suas páginas:
de livros, teses, artigos.
Páginas da web, deste blog;
de álbuns antigos de fotografias.
Dizer sobre como temos preenchido nossas páginas:
de letras, lágrimas, respingos de cerveja.
Com amor, dor, alegrias e, principalmente, coragem.
Coragem de construir as páginas, submetê-las aos olhares do mundo.
De abandoná-las às gavetas, para voltar olhares a outras páginas.
De colocá-las em envelopes e enviá-las ao redor do mundo. Apenas para serem tocadas por outras mãos, enquanto lêem: - não.
Coragem de finalmente virar as páginas e encarar, novamente, uma página em branco.
Que as encara de volta como abismo.
No fundo dele: deriva e caminhada (Geremias, 2016) de canetas sobre novas páginas.
Hoje é dia de virada de páginas muito especiais. De páginas rasgadas. Amassadas.
Libertadas.
Espero podermos ainda virar muitas páginas juntas. Deste livro que estamos compondo de nossas vidas.

E que o gênero melhore. Porque novela mexicana tá foda.

terça-feira, janeiro 05, 2016

todo dia




todo dia
em que estamos juntos,
perto ou longe,
me
desdobro…

perguntas, suposições
planos loucos de estrelas
e de mar.

Não importa o que ela quer – você diz.

Não importa mais nada?
Além de…
Esse momento frouxo de insanidade,
dobrados em ansiedades
de colocarmos,

nossos corpos um no outro?
E o que somos…
E o que mais não importa?

A minha boca, perto.
da sua boca, perto.
Sorrindo-se enquanto tudo vai pelos ares
destes nossos sons,
de se dizer.

Ando roubando suas palavras,
pelas frestas da janela,
enquanto o sol nasce.
e você pensa que me distrai

Não estou sozinha
em nenhuma delas.
todas tem a sua presença
como condição.

são decorrentes,
desse encontro
dos olhos
cotidianos
que se olham
pela primeira vez

todo dia.




domingo, janeiro 03, 2016

A pequena sereia



É um conto dinamarquês sobre uma sereia que decide se tornar humana para ficar com o cara por quem está apaixonada. Pra isso ela procura uma feiticeira no mar, que a transforma em humana em troca da sua… voz! Na versão “não Disney”, ela não consegue se declarar para o cara. Ele fica com outra. E ela se joga no oceano, se transformando em espuma do mar…
Romântico, né?
E eu.. me joguei no mar e vim pra Dinamarca num súbito momento de completa insanidade mental, atrás de um cara que parecia uma ótima ideia… há 5 meses atrás.
De repente eu acordo, uma semana depois, em Copenhagen, de ressaca. Ele está ao meu lado, olhando pra minha cara e diz sorrindo: “bom dia docinho”.
Oi? Bom dia?
E eu olho ao redor e percebo: alguns dias sem conseguir tocá-lo, alguns dias acordando com vontade de matá-lo, alguns dias quase brigando pela forma como ele corta o pão, ou como fica supervisionando tudo que eu vou fazer, tentando ajudar… e pareciam 30 anos.
E foi assim, que uma semana após chegar na Dinamarca eu percebi: estava casada! Minha pequena sereia deu certo e eu não sabia o que fazer.
Acho que por isso os contos de fada só vão até a hora que o casal fica junto. Porquê depois… depois de meses, de anos, de dragões, de sonos eternos, de maçãs envenenadas, depois…
estamos sentados na mesa do café da manhã, depois de ele cortar o meu pão daquele jeito (de novo!). Fiquei uma semana, ali, como ela, sem voz. De repente deu. E eu digo: tá, sou só eu que acho que tudo, tudo, tudo deu terrivelmente errado?
Ele me olha pela alça da xícara de café e diz “não. Não é só você”.
(não bastasse o fato de eu não conseguir extirpar da minha mente minhas duas últimas semanas antes de vir… com alguém que me fez sentir tão bem… só faltava ele achar que tudo estava ótimo!)
E aí sim eu respirei aliviada. Mas se não fosse isso, esse romper o silêncio e quase gritar, muito baixinho… eu ia morrer. Seu eu tivesse que fingir, se tivesse que ficar, se tivesse tantas coisas que cheguei a pensar…
Ao menos, ele também sente que a gente foi levemente "sem noção" - achando que tudo se resumiria a comprar uma passagem e viver "felizes para sempre". A gente absolutamente não pensou em milhões de coisas... como, por exemplo, que passaram 5 meses e que os sentimentos mudam.
(e por quê não nos últimos segundos: duas semanas e meia e eu largaria tudo, até a minha voz, por esse outro que eu não sei nem se está me esperando no Brasil. E isso também me faz pensar em quanto tempo será que esse outro sentimento vai durar, tendo em vista a rapidez como eu quero virar conto de fadas ultimamente)
e a gente estava nessa de brincar de terra da fantasia, de pensar que daqui a dois anos ele iria morar no Brasil para ficarmos juntos… what? É. Começou até a fazer aulas de português.
Comprar passagens para a Dinamarca parecia tão plausível quanto achar que se está apaixonada depois de ficar junto com alguém por 20 dias. Cada um na sua casa.
(mas é exatamente por causa de 20 dias que eu preciso ir embora, agora, encontrar o outro – mais uma decisão cretina? Agora parece tão mais real).
Estes cinco meses foram uma espera divertida e romântica de um príncipe encantado dinamarquês (seria o Hamlet? Meo deos!) e de superar obstáculos para se viver o amor… ahh… o amor….
O amor acabou, tão rápido quanto começou. E no que eu me meto quando fico assim? Vim até o frio do vento russo que corta esse país no meio, menos 5 graus, oi, sim, menos 5!!!!
Sem grana, sem “o” amor, sem sol, sem amigos. Mas não. O que eu ganhei aqui dessa conversa foram muitas risadas e uma certa consciência mútua de como fomos impulsivos e irresponsáveis e românticos. Ganhei um amigo (ao menos até o momento), que está rindo comigo das nossas bobagens.
E amanhã vamos procurar um hotel pra eu passar os últimos dias.


segunda-feira, outubro 12, 2015

Por quê tanto medo?



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Se encontrar
vendo a pobreza
com medo.
medo de pobre,
de sujo,
sentir bem por ser,
 outro

Quase tropeçar
Desviando na rua,
Jogar uma moeda com horror,
Do cheiro,
E medo.

Medo da sua sorte,
Como se fosse sorte.
Medo da sua falta de fé,
Como se faltasse fé.
Medo
De outra gente,
Como se fosse mesmo outra,

Sentir,
esforçar ficar parada na esquina,
sentir e não fugir,
cada outro não me esbarrar,
não me matar,
não me assaltar,
nem
olhar.

Porque também me vê outro,
e tem medo,
que a minha janta
seja três dias de comida dos filhos,
que o meu banho,
seja dois dias de água,

medo, de eu o matar.

Quando se deixa de ver
o outro,
Sendo eu mesmo,
E a recíproca,
verdadeira,
perversa,
e a pergunta que fica:
quando eu deixei de ser o outro?

Fica, na verdade, só a Ilusão
de que o outro não é você.