E ele simplesmente disse que não
sentia minha falta. Depois do sexo. “Mas, o sexo foi bom”. Eu entendi que
poderia ser uma boa prostituta, ao invés de uma boa “namorada” ou a “mulher
amada”. Não sei se deveria representar algum papel. Depois de um final de
semana maravilhoso na praia, em uma cabana com banheira, muitos carinhos e
risos, ele fica “ausente” uma semana e diz depois que não entendia porque não
sentia vontade de me ligar, talvez não gostasse mesmo de mim. Queria um tempo
para pensar. Eu fiquei lá, me revoltei, falei. Cansada de ser boazinha. Ah esse
papel da boazinha me cansou. Nessa hora eu vi que esse desejo de ser boa, essa
ideia de amor tranquilo, amigo, preocupado, é balela. Então eu quis gritar,
sair correndo. Diante da dúvida, fiquei. Poderia ter ido embora. Deveria? Não
sei. Fomos comer uma carne assada, engoli minha raiva junto com a farofa, a
carne e a maionese. E pra descer bem direitinho, tomei uns quatro copos de
cerveja. E desceu. Mas é óbvio que desceu rasgando. Depois, durante os outros
dias fizemos amor, saímos, namoramos e não falamos mais disso. Deu a entender
que as palavras antes ditas haviam desaparecido. Na última noite, num bar
mexicano, falamos coisas banais. E falamos de nós. Deu a entender que a
história continuaria apesar do que foi dito. Fiquei pensando no meu modo de ser
e na necessidade de mudar meu modo de agir com ele. Não por ele, mas por mim. E
pensei, sobretudo, na necessidade de mudar meu modo de agir comigo. “Não, sua
boba. Ele não vai te amar mais se você for boazinha e estiver sempre lá”.
Então, melhor ser a praga que eu sei ser. Melhor deixar que ele pense o que
quiser e que fique se assim o quiser. E também que parta, pelas razões que
quiser.
sexta-feira, maio 17, 2013
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
Encontro
Vou demarcar círculos, lugares, espaços, refúgios onde eu consiga me
achar.
Vou esfarelas as migalhas pra marcar o caminho.
O lugar do encontro, o lugar onde nasce a criatividade, a
vontade, o desejo, o movimento, a voz. O lugar onde tudo é verde, onde cheira à
novidade, brinquedo novo.
Nesse espaço, nesse círculo, encontro o sentido, o instinto,
encontro o riso aberto, o óculos perdido que fazia ver tão bem.
Quando estiver chegado de lá, parecendo uma das bruxas dos
contos de fadas, cheia de mistérios, conhecimento das poções, dos perigos, dos devaneios...tudo vai florescer. Vou dar à luz a um pedaço de sol.
No silêncio
Se as horas já não cabem mais
Se já foi silenciado tudo do tanto que tinha a dizer
Se já não sei por que dizer
Não há tempo que mova o que tenho de mais sincero
Não há silencio que diga o que guardo sem tempo, sem graça,
sem nem saber por quê.
sábado, novembro 10, 2012
Desapego
Na vida passamos por várias etapas. Em todas elas há perdas. Largar a teta, pegar a mamadeira. Depois comer sozinha de colher e garfo. Sair do colo, engatinhar, andar. Perder o passo, cair e levantar. O irmão que nasce. Deixar de ser a criança especial da casa. E, se irmão nenhum nasce, acostumar-se a crescer meio sozinho. Na verdade, mesmo com irmãos, crescer se achando só. Festas de natal! Papai Noel sacana. Cadê o presente que eu pedi? Ah, acho que não fui boazinha o bastante!
Crescemos vendo gente chegar e partir. Coisas que gostamos que não cabem mais. Aquele vestido de babado, todo fofo. Aquela boneca que não canta mais porque a pilha enferrujou ou ela ficou velha ou quebrou uma parte. Consertar bonecas! Crescemos tentando consertar a boneca quebrada. Ela não será nunca a mesma.
A vida é mesmo engraçada. De tanta desgraça, às vezes ela perde a graça. Mas, ela também é interessante de vez em quando. Os amores vão embora e outros chegam e você pensa que será o derradeiro. Aquele. Do bom! E ele é. Até que a vida te mostre novamente que tudo é passageiro. Felicidade eterna é coisa para quem é santo! Ah que chatice essa tal de felicidade eterna.
Ainda ontem relembrava coisas que vivi. O trem. A torre. Palavras de amor em outra língua. Até a língua se perde, se esquece. Tudo, tudo nessa vida tem um prazo. E você quer que dure para sempre. A mãe, o pai, o cachorro, o namorado, as amigas, o trabalho, a praia, a viagem de trem. Mas, num instante você se vê tendo que chorar mais uma vez alguma dor, alguma perda, alguma derrota. Somos mesmo bichos estranhos. Os outros bichos parecem se conformar mais às mudanças, às transformações. Sabem que o tempo de hoje já foi.
O que existe são intervalos. Alguns bons. Outros ruins. E, tudo depende da perspectiva. Ser Poliana é bom, mas a Poliana é uma chata. Rasgar o verbo, gritar, mandar às favas, querer sumir, partir. A vida tem disso também. E tem sorvete de menta, cerveja, cigarro, sexo, carinho, abraço, beijo na boca, risos, água do mar, cinema e pipoca. Quem quer saber de chorar? Chorar é para os fracos. Rir é para os loucos. O que nos resta?
Uma amiga chora de angústia da perda. Tinha uma cachorra que amava e perdeu. E, você tem que simplesmente dizer que é assim a vida. Eu já perdi pessoas que amava, amava mesmo. E já morri de medo de perder aquela que me abrigou no útero. Mas, eu tive fé. Eu rezei pra Deus. Eu mudei meu mundo. E por tudo isso, ela está aqui. Ainda me abrigando, fazendo minhas roupas com tecido que escolho e me ensinando coisas, que só ela, mais ninguém sabe. Porque ela me conhece e todas as minhas tripas. Por isso, não abro mão da fé. Gosto de inventar Deus e santos. Acreditar no milagre. Nem sempre ele acontece, mas quando se mostra, é um alívio.
Tem dias que é preciso arrumar as gavetas. Jogar coisas fora. Deixar ir o velho. Hoje arrumei algumas. Nossa! Como cansa fazer isto. Escolher o que vai e o que fica. Quanta coisa inútil guardada, que não serve para nada. Na gente acontece o mesmo, tem tanta cacalhada na memória que é preciso limpar. Deveria haver uma vassoura que limpasse o cérebro ou um aspirador que fosse limpando tudo, sugando coisas ruins da alma. Enquanto não inventam isto, limpo as gavetas ensaiando o desapego.
terça-feira, outubro 02, 2012
segunda-feira do inferno
Tem dias
que o dia tira pra te tirar... hoje foi um desses. Começando por ser
uma segunda-feira chuvosa e eu com mil coisas a fazer. Acordo e sento
no computador. Minhas costas lembrando que eu estou velha e com
problema de junta... mesmo tendo acabado de acordar, tudo dói.
Sento ali
e leio os e-mails. Vai uma hora até resolver todos, isso os que tem
solução. Vou planejando minhas aulas, reescrevendo projeto de
pesquisa, “des”orientando alguns orientandos, enfim, essas coisas
de sempre. Ao menos não tiveram a deselegância de convocar uma
reunião de departamento com essa maldita tempestade.
Às onze
eu deveria ir à academia, mas a chuva aperta. Olho o relógio,
passam quinze minutos e as aulas não se resolvem: vídeo? Texto?
Ahn?
Me chamam
no bate-papo do gmail. É o gatinho novo. E ele está muito feliz
porque foi surfar às sete da manhã e louco para compartilhar todas
as suas emoções. - ele é maluco!
Nem as
sua fofuras ajudam nessa irracionalidade de segunda-feira de
tempestade. Aliás, ele passa a ser meio detestável neste contexto,
ainda mais exalando essa felicidade bizarra...
Ele é
tudo o que todo mundo queria para a minha vida, menos eu. E depois
vem me dizer que os conecitos não são relativos.
Está
decidido: academia só no final da tarde, quando retornar das duas
consultas médicas. Continuo minha obra-prima didática, só que ela
tá ficando meio desbeiçada.
Minha
cachorra acorda a cada meia-hora com seu fôlego de enfisema e vem
pedir pra ir lá fora, coisa que ela não pode mais fazer. E eu
assisindo a este sofrimento cotidiano, cheia de culpas, que ela está
assim porque eu vim pra cá, que ela não tem gente pra ficar com ela
e eu também não posso ficar como achei que poderia... eu deveria
ter deido ela lá? Eu deveria ter vindo?
E uma
merda de e-mail que parece que eu não sei mais escrever, porque
ninguém entende o que eu digo, nunca vi... ando tão esquizofrênica
que parece até que refletiu em tudo, até na porra de resposta de
e-mail.
Fui à
fonoterapia e o trânsito tava tão louco que me atrasei. E a mulher
me trata como uma criancinha e faz um resumo dos meus exercícios
numa orelha gigante de papel pra eu pregar na minha cozinha e lembrar
de mastigar do jeito certo. Eu já cansei dela, acho que já deu, mas
ela não me dá, não fuckin me dá alta!
Então eu
saio de lá com a orelha na agenda e corro pra clínica que o médico
me mandou pra fazer o exame. E eu telefonei pra lá antes e me
disseram que lá fazia o exame... e, quando eu chego (fui andando,
sabe? Porque era até perto), não fazia o exame. Mas eu liguei
moça... é, mas te informaram errado. Mas tem um lugar aqui atrás
que faz, vai lá. E eu fui. Mas lá não faz digital moça. Digital é
só na Bocaiúva. Eu ligo pra Bocaiúva: vocês fazem? Fazemos! E até
que horas? Se você chegar até às 18:30h, ainda pode fazer.
Corro pro
carro e saio de novo na tempestade e, nessa cidade, tempestade é o
inferno no trânsito. Mas eu vou, eu consigo, é hoje! Eu paro no
estacionamento que sei que existe e custa seis reais a hora. Deixo o
carro e corro pro número indicado. E lá havia estacionamento
gratuito...
Enfim,
cheguei e são seis e vinte! Mas naquela portaria não pode. Lá é
até às 18h. A moça me leva à outra e avisa às moças da
recepção. É só pegar a senha, moça. Eu pego e sento. São sete
horas e chamam a minha senha. Ai moça, era só até às 18:30h. O
radiologista já foi. Mas, como? A moça me trouxe aqui e falou pra
vocês! Mas, pois é, não tem nada que eu possa fazer.
E não
tem mesmo. E o que eu vou fazer? Bater nela?
Eu saio
derrotada e com fome. Vou ao shopping e como um hamburguer enorme de
picanha. A academia acaba de deixar de fazer parte da realidade de
hoje.
Vou ao
supermercado ali mesmo. Ao menos é um supermercado que presta, com
coisas bonitas e até baratas. Tem mais fila.
Chego no
estacionamento e foram dezoito reais.
Dezoito
reais e 3 horas jogadas no lixo. Eu não estava amando nem um ponto
daquele caminho. A última vez que me senti feliz foi ao ouvir “nós
gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”... foi
sábado à noite.
Cheguei
em casa às 21h. E tão cansada... e a Mel estava mais ofegante do
que nunca. Querendo sair, fazendo o maior esforço pra andar e pedir
pra eu abrir a porta, botar o focinho na rua... e eu não deixo.
Eu olho
pra ela e choro, choro tanto, peço desculpas, tantas desculpas...
por ter demorado tanto, deixado sozinha, por ter trazido ela pra cá,
nessa casa sem gente, pequena... por não ter tempo pra ela, por não
descobrir porque ela tá tão doentinha, por não poder ir dar aquela
voltinha no quarteirão, que era tudo que eu conseguia quando chegava
podre do trabalho...
Ela fica
olhando nos quartos, parece que procurando alguém, mancando da mão
direita.
Nem
parece que nadou na praia e na lagoa do Peri no fim do ano passado...
foi tão rápido, foram uns meses só.
Sento na
cama, vejo os e-mails e ninguém me entendeu mesmo. Hoje eu não
deveria ter escrito nada para ninguém.
Vou ver
os debates dos candidatos à prefeitura daqui. Meu deus, que coisa
amadora... E me dizem ali nos e-mails de como há controle e
regulação... ah, fala sério. Isso aqui é terra de ninguém.
Hoje eu
tou de mal com o mundo.
Tá duro
manter os pedaços juntos. Tá duro manter as escolhas.
Eu acabo
me assustando com a minha incapacidade. Sinto falta até de morar com
meus pais, de tanto que não dá, não tou conseguindo sozinha.
Sozinha mesmo, sozinha pra caralho.
E é
incrível como ninguém quer saber dos nossos problemas...
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