sexta-feira, novembro 29, 2013

Laís e Clara. O contraponto, a complementaridade. 

Laís mora num apartamento apertado na praia de Botafogo, herança de tia avó. Quer ser atriz. No tempo vago faz aulas de teatro e canto. Trabalha de garçonete num requintado restaurante em Ipanema. Entre o vai e vem de gente sofisticada, Laís aos suspiros toda vez que encontra um global, um artista famoso. Em casa, diante do espalho faz as caras e bocas que vê no rosto dos frequentadores do restaurante. Acorda cedo pra caminhar na lagoa, coloca boné, óculos de sol e faz de conta que é famosa. Lá vai ela, arrumando espaço aqui e ali para viver seu sonho.

Clara mora em uma casa em Florianópolis. Trabalha num banco, concurso público. Tem certeza de que tem tudo o que podia querer. Gosta de filmes de terror e de ler romances. Sonha em encontrar o cara, não sabe se vai realizar. Estuda inglês, quer uma promoção. No fim da tarde passa na lagoa e pede um café, puro, mais nada e fica olhando o vai e vem de locais e turistas, fica olhando o vai e vem da água e pensa que podia fazer natação.

Laís e Clara tem em comum uma lagoa. Laís gosta de samba, Clara prefere um pop. Laís pinta os olhos de lápis azul e usa pulseiras exuberantes. Clara de sapatilha e camisa de gola abre o botão de cima pra aparecer um pedacinho do colo. Laís tem paixão por bolsas. Clara tem paixão por imã de geladeira, faz coleção.

Clara cansada da chuva compra passagem para Cuiabá, vai ver uma amiga de infância. Laís, cansada de gente compra passagem para Florianópolis, vai curtir em Jurerê Internacional.
Escala em Guarulhos. Portão de embarque 17. Peregrinação pelos portões 22, 13, 2 e finalmente o embarque. Clara derruba seu livro no chão. Laís pede uma cerveja. Clara ao ver Laís pensa que já a viu em algum lugar, será alguma atriz?

Os olhos no encontro se (re)conhecem. Alguma parte perdida de si  estava naquela outra, alguma coisa que diz que são incompletas.  Laís de salto 15, Clara de sapatilha. Cada uma pensando que podia ser um pouco mais daquela outra, uma sensação de que estavam deixando de viver um pedaço da própria vida, frases, ruas, lugares, silenciados pelas escolhas, pelos caminhos seguidos por cada uma. Por um breve instante dividiram seus mundos, em um breve instante alguma coisa mudou.


Clara segue para Cuiabá e no aeroporto compra um batom vermelho. Laís para Floripa, prende o cabelo e faz de conta que é a mesma.



terça-feira, novembro 19, 2013

Johnny's rice



Depois de todas as palavras já terem sido escritas,
todas as combinações entre elas,
você me oferece esse prato de arroz

Mas quase nada restou pra descrever a fome
constantemente alimentada
de uma poeta já sem letras

então eu aceno quando você passa,
e eu sei que o gesto é sobra
mas é como posso dizer do vento que me flutua

E a cada olhada, destes seus verdes,
os meus transbordam
sentindo saudades das palavras com as quais queria contar

na intimidade com elas,
de mim e de você,

no momento em que os nossos pés deixam de tocar o chão


quinta-feira, setembro 19, 2013

mas te quero livre também...

Tou daquele jeito estúpido que paro a vida quando ele diz que vem.
E eu nunca sei se ele vem - o que faz ser ainda mais charmosa a espera.
Mas ele sempre vem.

me acorda de madrugada.
Eu abro um sorriso, as pernas,
abano o rabo...

Uma, duas, três vezes, me acorda.
Quando sente dó de mim, vai dormir no outro quarto.
eu já sinto saudades, mesmo à distância de um corredor.

a completa insatisfação de se estar apegada,
a algo volátil como o esfregar do seu rosto no meu,
e o jeito como toca a minha coluna com as pontas de todos os dedos.

Eu desafino
uma promessa que parece nunca chegar,
enquanto eu te canto


e você me encanta

domingo, agosto 25, 2013

Olhos Azuis

Não pense que eu vou falar sobre os seus olhos,
já esgotados das palavras de outras...

a obviedade do azul me entedia.
E o que me mata é mais que cor:

é um modo de olhar com fome,
que está escrito em todo o teu corpo.

terça-feira, agosto 20, 2013

Good Friday



O que? Se eu estou escrevendo? É claro que não estou escrevendo.
Minha cama parece uma cena de crime.
Um cheiro de tudo que
descaracteriza travesseiros e lençóis.

Manchas de vinho, de blues,
fumaça de cigarro,
e um quente de mãos que parecem
nunca ter deixado meu corpo

deito como se fosse ninho,
mas, de cobras.
a gata eriçada, fareja um medo que ainda perdura...
temo que o quarto tenha enfim, se tornado covil.

Mas deste arrepio involuntário,
respiro fundo e devoro
cada pedaço, farelo, resto, sombra.
dois dedos de vinho que sobraram naquela garrafa,

uma menina sem graça,
que mora dentro de mim,
e espera, ansiosamente,
a próxima boa sexta-feira.