domingo, janeiro 03, 2016

A pequena sereia



É um conto dinamarquês sobre uma sereia que decide se tornar humana para ficar com o cara por quem está apaixonada. Pra isso ela procura uma feiticeira no mar, que a transforma em humana em troca da sua… voz! Na versão “não Disney”, ela não consegue se declarar para o cara. Ele fica com outra. E ela se joga no oceano, se transformando em espuma do mar…
Romântico, né?
E eu.. me joguei no mar e vim pra Dinamarca num súbito momento de completa insanidade mental, atrás de um cara que parecia uma ótima ideia… há 5 meses atrás.
De repente eu acordo, uma semana depois, em Copenhagen, de ressaca. Ele está ao meu lado, olhando pra minha cara e diz sorrindo: “bom dia docinho”.
Oi? Bom dia?
E eu olho ao redor e percebo: alguns dias sem conseguir tocá-lo, alguns dias acordando com vontade de matá-lo, alguns dias quase brigando pela forma como ele corta o pão, ou como fica supervisionando tudo que eu vou fazer, tentando ajudar… e pareciam 30 anos.
E foi assim, que uma semana após chegar na Dinamarca eu percebi: estava casada! Minha pequena sereia deu certo e eu não sabia o que fazer.
Acho que por isso os contos de fada só vão até a hora que o casal fica junto. Porquê depois… depois de meses, de anos, de dragões, de sonos eternos, de maçãs envenenadas, depois…
estamos sentados na mesa do café da manhã, depois de ele cortar o meu pão daquele jeito (de novo!). Fiquei uma semana, ali, como ela, sem voz. De repente deu. E eu digo: tá, sou só eu que acho que tudo, tudo, tudo deu terrivelmente errado?
Ele me olha pela alça da xícara de café e diz “não. Não é só você”.
(não bastasse o fato de eu não conseguir extirpar da minha mente minhas duas últimas semanas antes de vir… com alguém que me fez sentir tão bem… só faltava ele achar que tudo estava ótimo!)
E aí sim eu respirei aliviada. Mas se não fosse isso, esse romper o silêncio e quase gritar, muito baixinho… eu ia morrer. Seu eu tivesse que fingir, se tivesse que ficar, se tivesse tantas coisas que cheguei a pensar…
Ao menos, ele também sente que a gente foi levemente "sem noção" - achando que tudo se resumiria a comprar uma passagem e viver "felizes para sempre". A gente absolutamente não pensou em milhões de coisas... como, por exemplo, que passaram 5 meses e que os sentimentos mudam.
(e por quê não nos últimos segundos: duas semanas e meia e eu largaria tudo, até a minha voz, por esse outro que eu não sei nem se está me esperando no Brasil. E isso também me faz pensar em quanto tempo será que esse outro sentimento vai durar, tendo em vista a rapidez como eu quero virar conto de fadas ultimamente)
e a gente estava nessa de brincar de terra da fantasia, de pensar que daqui a dois anos ele iria morar no Brasil para ficarmos juntos… what? É. Começou até a fazer aulas de português.
Comprar passagens para a Dinamarca parecia tão plausível quanto achar que se está apaixonada depois de ficar junto com alguém por 20 dias. Cada um na sua casa.
(mas é exatamente por causa de 20 dias que eu preciso ir embora, agora, encontrar o outro – mais uma decisão cretina? Agora parece tão mais real).
Estes cinco meses foram uma espera divertida e romântica de um príncipe encantado dinamarquês (seria o Hamlet? Meo deos!) e de superar obstáculos para se viver o amor… ahh… o amor….
O amor acabou, tão rápido quanto começou. E no que eu me meto quando fico assim? Vim até o frio do vento russo que corta esse país no meio, menos 5 graus, oi, sim, menos 5!!!!
Sem grana, sem “o” amor, sem sol, sem amigos. Mas não. O que eu ganhei aqui dessa conversa foram muitas risadas e uma certa consciência mútua de como fomos impulsivos e irresponsáveis e românticos. Ganhei um amigo (ao menos até o momento), que está rindo comigo das nossas bobagens.
E amanhã vamos procurar um hotel pra eu passar os últimos dias.


segunda-feira, outubro 12, 2015

Por quê tanto medo?



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Se encontrar
vendo a pobreza
com medo.
medo de pobre,
de sujo,
sentir bem por ser,
 outro

Quase tropeçar
Desviando na rua,
Jogar uma moeda com horror,
Do cheiro,
E medo.

Medo da sua sorte,
Como se fosse sorte.
Medo da sua falta de fé,
Como se faltasse fé.
Medo
De outra gente,
Como se fosse mesmo outra,

Sentir,
esforçar ficar parada na esquina,
sentir e não fugir,
cada outro não me esbarrar,
não me matar,
não me assaltar,
nem
olhar.

Porque também me vê outro,
e tem medo,
que a minha janta
seja três dias de comida dos filhos,
que o meu banho,
seja dois dias de água,

medo, de eu o matar.

Quando se deixa de ver
o outro,
Sendo eu mesmo,
E a recíproca,
verdadeira,
perversa,
e a pergunta que fica:
quando eu deixei de ser o outro?

Fica, na verdade, só a Ilusão
de que o outro não é você.


sexta-feira, outubro 09, 2015

Eu sobrevivi à queda de um penhasco.


Eu sobrevivi à queda de um penhasco. Não me pergunte como. Só me dei conta que estava caindo quando já ia no meio do caminho. Mas não sobrevivi para contar uma magnífica história, para virar manchete, exemplo de sobrevivência.

Na queda quebrei muitos ossos, muitos sonhos partidos, outros quebrados para sempre. Não quero contar para mais ninguém a história da queda. Caí e ponto, fato. Os efeitos da queda ainda doem em mim. Cada pequeno ferimento aparece doído, latejante, quando penso que já foram embora. Toda semana trato dos machucados, alguns mais superficiais, outros são tão profundos que ainda nem sei que existem, não tenho ideia de como tratar deles. Depois que se cai de um penhasco, passar por qualquer ondulação causa dor, cada parte do corpo relembra a dor dos machucados da queda. A parte que dói mais são as crenças, fantasias, que ficam totalmente rasgadas. As ataduras já são tantas que pareço mais uma múmia do Egito antigo, andando pelo mundo meio sonâmbula de tanto remédio, vinho, trabalho, bobagens, família. As ataduras escondem os machucados, escondem de todos, ninguém pode ver as feridas que ficaram. Eu na maior parte do tempo finjo que elas não estão aqui, bem debaixo da atadura branquinha, limpinha, bem passada, bem comportada.


Me perguntam se fui empurrada penhasco abaixo, se pulei porque quis, se queria voar...acho que foi um pouco de tudo isso. Pulei porque queria voar, depois de um empurrão da vida, mas não, não tinha ideia do tamanho da queda. Apesar dos machucados eu sobrevivi e sigo sobrevivendo, me perguntando se existe terra firme ou se a vida é isso mesmo, um salto mortal de penhascos mais e menos perigosos.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Invenção

Chega de inventar a saudade! Foi a frase que leu em um artigo de revista.

Inventar foi algo que fez muito na vida...inventou uma mudança de cidade, um novo amor, um casamento, uma nova paixão, uma separação, um amor sem fim, um homem, uma decepção, nova separação, inventou um silêncio, um recolhimento, um rompimento. Tudo inventado. O que não é?

Agora se dedicava meticulosamente a inventar a liberdade, a superação, o fim da tristeza, uma nova vida. Inventava um horizonte diferente, inventava uma solidão vivida com vontade, com prazer, com carinho. Era preciso mesmo inventar um jeito de se pensar como mulher, como alguém independente, bonita, sensual. Era hora de reinventar o viver. 

Como se estivesse acordando de um coma, reinventa uma nova forma de estar no mundo.

Não, não é um ponto de partida, é sim um ponto de chegada. Estar no seu lugar de um jeito novo. Estar em casa. Estar acolhida, pela primeira em vez, em si. Satisfeita de ser.

sábado, agosto 16, 2014

Diferenças



Eu estava com saudades dele. Ele de mim. Nos encontramos em um café.
Ele me contou da sua vida, que conheceu alguém, mas não deu certo. Parece que a garota não queria nada sério. Ele queria um relacionamento de longo prazo. Eu fiquei calada, porque esse foi o motivo que nos afastou. Eu gostava mesmo de ficar com ele. Eu me sentia bem. Eu percebia que havia um entrosamento, mas muitas diferenças também. Algumas que me incomodavam e que eu sabia que cresceriam. Eu não estava mais disposta a equilibrar as diferenças. Gostaria de conhecer alguém mais parecido comigo, mesmo que eu não soubesse o que isso signifique. Bom, no café nós conversamos sobre coisas banais. Falei dos meus sonhos pessoais, ele falou da sua rotina. Eu tenho um problema que é viver no futuro. Ele vive o dia de hoje. Essa é uma diferença. Talvez, ela pudesse nos aproximar ou me fazer voltar para a realidade e viver o hoje e quem sabe ele sonhasse mais e não fosse tão realista. No café, entre o croissant e o cappuccino eu vi o seu sorriso. Senti vontade de beijá-lo, de casar e ter uma dúzia de filhos. Quase esqueci das diferenças e dos meus sonhos tão mesquinhos. O fato, é que seu sorriso ficou gravado na minha retina, desde que o vi no primeiro dia. Mas, este mesmo sorriso que me derrete não é suficiente para uma relação. Então, depois do café nos despedimos. Eu voltei para casa para preparar a mala para uma viagem um pouco longa e ele foi correr, como faz todos os dias.